[Dramaturgia]

Dramaturgia

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Tessitura de histórias

A palavra-corpo é força motora da cumplicidade que se estabelece nos trabalhos da Zózima Trupe. Proferida pelos atores através de suas personagens, ganha vida sobre as rodas e o ferro frio do ônibus. É ela que é capaz de superar as distâncias e propiciar o encontro verdadeiro entre as pessoas.

Avaliando nossas experiências de encenação, buscamos novos caminhos para os trabalhos. O movimento de pesquisa em dramaturgia orienta-se a partir do diálogo e confronto entre história oral (a memória, o relato), textos literários (teatrais ou não) e obras de artes diversas (fotografia, música, cinematografia, pintura).

A criação dramatúrgica da Trupe parte, sobretudo, de palavras-memórias das pessoas, dos lugares e das coisas. Não se trata, porém, de um registro stricto sensu da realidade. São caminhos propostos na carpintaria de impressões dos artistas - atores e dramaturgos - sobre este material. O intuito é tecer os caminhos para um teatro do encontro sem fronteiras.

No pensamento do filósofo Martin Buber, a existência humana emerge do encontro dialógico. Existimos ao conversar, ao dialogar, ao nos relacionar. Dentro desta análise, a palavra torna-se em si a interação entre indivíduos: ela passa a ser compreendida como uma categoria antropológica. No diálogo, a palavra não é apenas anunciação da razão ou manifestação da subjetividade, mas, segundo Buber, elemento fundante do relacionamento Eu-Tu. Esta interrelação exige, além do diálogo, responsabilidade e encontro. É nela que reside o ser humano. E a Zózima Trupe faz de seus movimentos de pesquisa e de seus trabalhos artísticos instrumentos proporcionadores de encontros.

Em Cordel do amor sem fim, buscamos na dramaturgia de Cláudia Barral a lembrança de personagens inventados cujas vidas seguiam o fluxo do Rio São Francisco e o movimento do ônibus. As palavras de Nelson Rodrigues nos deram a sustentação para falar da juventude de nossos tempos em Valsa nº 6. Nossa inspiração na obra de Pedro Bandeira trouxe o lúdico e o simbólico do que um ônibus pode representar em O poeta e o cavaleiro. 

Para Dentro é lugar longe, convidamos Rudinei Borges dos Santos para nos ouvir: a tessitura se emaranhou das narrativas de vida dos integrantes da Zózima, trazendo memórias de infância para o agora. Quando fomos para os ônibus de linha em Os minutos que se vão com o tempo, Cláudia Barral alinhavou vivências e caminhares com um retorno ao lar: a Trupe narrou cartas de tantos Odisseus possíveis no embalo de itinerários diversos.

Já em A Cobradora, em nova parceria com Cláudia Barral, ouvimos as histórias de vida das trabalhadoras do transporte público para pensar no ser mulher ontem e hoje, nos tempos míticos e nos tempos do cotidiano. Seguimos em nossas buscas pelas tantas histórias a serem contadas, as que existem e as que inventamos para falar do que não existe mas poderia existir.